Há quem use búzios, ou cartas, ou folhas de chá no fundo duma chávena. Há quem procure ler as estrelas, os alinhamentos cósmicos, ou as palmas das mãos. Também há adivinhos de bolas de cristal, consultores de espíritos, invocadores de oguns, xóguns e outros que tais. Tudo isto para responder a uma das nossas maiores angústias enquanto seres humanos: o futuro.
Saber de antemão os números do totoloto acarreta um aumento significativo da probabilidade de acertar. Conhecer o resultado final de um jogo de futebol pode fazer maravilhas para diminuir o stress e evitar o recurso aos mais coloridos dos vocábulos do dicionário. Divisar logo pela manhã que um dado dia irá incluir sexo permite escolher a melhor cueca, deixando de lado os slips desbotados pelo selo e com o elástico já gasto, e as meias com o buraco no dedão. O mesmo tipo de prevenção que um tipo pode exercer se souber de fonte segura que mais logo pela tardinha vai parar ao hospital.
Por outro lado, e como é comum num mundo cada vez mais falho de crenças e de fé, há também aqueles que por notória falta de imaginação e de criatividade pura e simplesmente não acreditam em nada, muito menos na possibilidade de prever o futuro. Vivem o momento, satisfeitos na tranquilidade que dá aceitar as coisas que não podem controlar. Usam quanto muito uma boa dose de bom senso (o que me parece algo pleonástico mas adiante) e um conhecimento mais ou menos pormenorizado dos acontecimentos passados como forma de adivinhar o porvenir. Tipos desta laia, apesar de se gabarem do seu estatuto de não crédulos, têm uma tal confiança nas suas capacidades dedutivas que frequentemente chegam a conclusões tão inabaláveis que numa demonstração testosterónica de fanfarronice e estupidez natural proclamam alto e bom som ser capazes de apostar um testículo nelas.
Eu por exemplo não preciso de ser a amiga Maya para apostar um dos meus referidos orgãos em que daqui a 7 anos Cavaco continuará a ser PR e o outro para alvitrar que pela mesma altura ainda estaremos a divergir da Europa nas estatísticas do economês.
Finalmente há ainda aqueles que dizem que o futuro a Deus pertence, mas não se eximem de tentar através de rezas e promessas condicionar o supremo arbítrio do divino.
Aqui chegado, assalta-me a recorrente sensação de que como é costume voltei a cometer o pecado da divagação, a misturar alhos com bugalhos, enfim a perder-me um pouco nesta sensação de formigueiro libertador que me dá na ponta dos dedos quando estou entretido a escrevinhar alguma coisa.
Neste caso, o factor desencadeante foi este: duvido que qualquer bruxo, adivinho, crente religioso ou mesmo mero analista especialista de informática e estatística pudesse prever o sucesso que isto ia ter.
os quatro elementos da natureza os quatro pilares da sabedoria os quatro atributos do corpo os quatro cavaleiros do apocalipse
9.2.07
8.2.07
Ao ataque
Mário Soares apresentou o livro 'Vítimas de Salazar' e não deixou de aludir ao concurso da RTP."O fascismo assassinou, deportou, censurou e exerceu toda a espécie de violências"
Um grande português, combatente primeiro anti-fascista e depois anti-comunista, pilar essencial do PREC e da transição suave para a democracia, impulsionador da descolonização, primeiro-ministro, motor da adesão de Portugal à CEE, presidente da república, homem das mil viagens, das presidências abertas e das forças de bloqueios, gerador de ódios e paixões, teimoso, culto, vaidoso, agnóstico, excessivo nos gestos e atitudes, bonacheirão, ligado à maçonaria, à CIA, e a histórias duvidosas como os diamantes de Angola e as confusões de Macau, enfim, uma personagem que não deixa ninguém indiferente e que marcou para sempre o século XX português, aqui num pequeno contributo para evitar que um concurso de génese populista e aparentemente fácil de ser manipulado consiga de algum modo diluir o passado.
7.2.07
Sem Dom nem Piedade
Como é que convidam alguém como a Leonor Pinhão para fazer uma documentário sobre D. Afonso Henriques? Não sei se viram, mas foi muito mau. A meio do dito programa só me ocorreu que pior, só talvez pedirem ao Gabriel Alves para falar sobre a Rainha Santa Isabel.
A não serem as datas e os factos mais ou menos identificados e reconhecidos, tudo o resto que envolveu aquela produção foi realmente sofrível. A realização má, a qualidade de imagem fraca, os textos presunçosos e a narração monocórdica e desinteressante.
Quando a meio do programa se abriu um capítulo inteiro, só sobre a cidade de Lisboa e a importância da sua conquista - com a leitura de inúmeras citações elogiosas sobre a mesma - , cheguei a temer que fosse narrado que o nosso primeiro era do SLB, quando no fundo sabemos bem que o que ele gostava era de espancar mouros e o que quis foi ver "Lisboa a arder".
Por outro lado, as comparações entre as vitórias nas batalhas de então com as mais recentes vitórias sobre os espanhóis, em futebol, mais concretamente no euro 2004, além de primárias, pareceram-me desadequadas, sobretudo depois de um fim de semana em que morreu um polícia em Itália por causa de um resultado de um simples jogo.
Aguardo contudo a exibição de outros documentários que me parecem que poderão vir a ser mais interessantes. Lembro-me por exemplo do de Fernando Pessoa - Clara Ferreira Alves; D. João II - Paulo Portas e de Luís de Camões - professor catedrático numa universidade britânica que lecionou durante vários anos uma cadeira sobre os escritos do poeta - não me recordo do nome .
A não serem as datas e os factos mais ou menos identificados e reconhecidos, tudo o resto que envolveu aquela produção foi realmente sofrível. A realização má, a qualidade de imagem fraca, os textos presunçosos e a narração monocórdica e desinteressante.
Quando a meio do programa se abriu um capítulo inteiro, só sobre a cidade de Lisboa e a importância da sua conquista - com a leitura de inúmeras citações elogiosas sobre a mesma - , cheguei a temer que fosse narrado que o nosso primeiro era do SLB, quando no fundo sabemos bem que o que ele gostava era de espancar mouros e o que quis foi ver "Lisboa a arder".
Por outro lado, as comparações entre as vitórias nas batalhas de então com as mais recentes vitórias sobre os espanhóis, em futebol, mais concretamente no euro 2004, além de primárias, pareceram-me desadequadas, sobretudo depois de um fim de semana em que morreu um polícia em Itália por causa de um resultado de um simples jogo.
Aguardo contudo a exibição de outros documentários que me parecem que poderão vir a ser mais interessantes. Lembro-me por exemplo do de Fernando Pessoa - Clara Ferreira Alves; D. João II - Paulo Portas e de Luís de Camões - professor catedrático numa universidade britânica que lecionou durante vários anos uma cadeira sobre os escritos do poeta - não me recordo do nome .
4.2.07
Finalmente alguém descobre a solução, 9 anos depois do 1º referendo e já na campanha para o 2º...
Acabo de ouvir na rádio o excelso Dr. Alexandre Relvas, o estratega de campanhas a quem Cavaco Silva já chamou o seu Mourinho, defender uma posição sobre o referendo à despenalização ao aborto que chega a parecer inspirada na sátira do gato fedorento ao Professor Marcelo. Segundo o Dr. Relvas a solução seria algo deste estilo:
Caríssimas portuguesas e portugueses, votem não numa demonstração inequívoca de respeito pela vida humana. Mas caso se vejam necessitados, por capricho, falta de dinheiro, tempo ou espaço para mais um miúdo lá em casa, a realizar um aborto em qualquer altura da vossa gravidez saibam que soluções não faltam. Caso tenham posses sugiro o costumeiro passeio a uma capital europeia do vosso agrado, onde podem sempre fazer umas comprinhas nas lojecas da moda. Caso sejam só remediados continuam a ter a opção de resolver o problemazito já aqui ao lado na amiga Espanha, podendo até aproveitar para comprar caramelos e atestar o carro. Caso não tenham onde cair mortas resta-vos ainda e sempre o ancestral recurso a um qualquer vão de escada infecto e badalhoco, com a suprema vantagem de não correrem o risco de ser presas ou perseguidas pela polícia no caso de terem complicações graves que vos obriguem a ir parar ao hospital.
Enfim,
é crime? sim.
pode-se fazer a qualquer altura da gravidez desde que não seja num estabelecimento de saúde legalizado? sim.
o que é que acontece a quem o faz? nada.
p.s.- a minha posição está aqui.
Caríssimas portuguesas e portugueses, votem não numa demonstração inequívoca de respeito pela vida humana. Mas caso se vejam necessitados, por capricho, falta de dinheiro, tempo ou espaço para mais um miúdo lá em casa, a realizar um aborto em qualquer altura da vossa gravidez saibam que soluções não faltam. Caso tenham posses sugiro o costumeiro passeio a uma capital europeia do vosso agrado, onde podem sempre fazer umas comprinhas nas lojecas da moda. Caso sejam só remediados continuam a ter a opção de resolver o problemazito já aqui ao lado na amiga Espanha, podendo até aproveitar para comprar caramelos e atestar o carro. Caso não tenham onde cair mortas resta-vos ainda e sempre o ancestral recurso a um qualquer vão de escada infecto e badalhoco, com a suprema vantagem de não correrem o risco de ser presas ou perseguidas pela polícia no caso de terem complicações graves que vos obriguem a ir parar ao hospital.
Enfim,
é crime? sim.
pode-se fazer a qualquer altura da gravidez desde que não seja num estabelecimento de saúde legalizado? sim.
o que é que acontece a quem o faz? nada.
p.s.- a minha posição está aqui.
2.2.07
1.2.07
Haja paciência...
À conversa com empresários chineses, o ministro da Economia Manuel Pinho apontou a nossa baixa média salarial comparativamente aos restantes países da UE como uma das razões para justificar o sino-investimento cá no burgo.
Ora, como a declaração do ministro é uma mera constatação do óbvio, o coro de protestos ao melhor estilo de virgens ofendidas que uniu partidos da oposição e sindicatos só se compreende à luz de alguma demagogia e aproveitamento político. Isto não invalida que comece a ser de bradar aos céus a falta de tacto do Dr. Pinho, que fiel ao seu historial de só ser notícia por maus motivos (a declaração que "a crise acabou", o caos com a ERSE e respectivas audições parlamentares, etc...) vem agora criar nova confusão ao melhor estilo cada cavadela cada minhoca. Ainda para mais num governo que conseguiu há poucos meses um acordo histórico entre todos os parceiros sociais para uma melhoria plurianual significativa do salário mínimo.
Será que como a oposição a Sócrates é pura e simplesmente inexistente alguns ministros se sentem estranhamente compelidos a agitar as águas?
Ora, como a declaração do ministro é uma mera constatação do óbvio, o coro de protestos ao melhor estilo de virgens ofendidas que uniu partidos da oposição e sindicatos só se compreende à luz de alguma demagogia e aproveitamento político. Isto não invalida que comece a ser de bradar aos céus a falta de tacto do Dr. Pinho, que fiel ao seu historial de só ser notícia por maus motivos (a declaração que "a crise acabou", o caos com a ERSE e respectivas audições parlamentares, etc...) vem agora criar nova confusão ao melhor estilo cada cavadela cada minhoca. Ainda para mais num governo que conseguiu há poucos meses um acordo histórico entre todos os parceiros sociais para uma melhoria plurianual significativa do salário mínimo.
Será que como a oposição a Sócrates é pura e simplesmente inexistente alguns ministros se sentem estranhamente compelidos a agitar as águas?
30.1.07
Materazzi: Um jogador a banir do futebol profissional
Talvez por ser um defesa e jogador do campeonato italiano do qual vejo poucos resumos e jogos, só no ano passado (?) num jogo da liga dos campeões entre o Inter e o Villareal, após uma agressão verdadeiramente selvagem ao Sorín, me apercebi do.... humm... Como é que lhe hei-de chamar?... Talvez "Futkickboxelbowing"... que o Materazzi pratica. Até o Benni quando ao serviço do nosso FCP já foi vítima, nas barbas do fiscal de linha!... Revolta-me especialmente o cinismo dele.
Vem isto a propósito de mais um lance protagonizado este fim de semana entre ele e o Delvecchio no Sampdoria-Inter a lembrar o célebre lance com Zidane no último Mundial em que ele sai como vítima para os mais distraídos... Até o jogador mais calmo perde a cabeça!
Considero que é incrível como é que a UEFA não toma medidas para castigar exemplarmente este jogador. Na minha modesta opinião, este jogador devia ter sido banido do futebol profissional há muito tempo! Que mais terá que acontecer para se tomar uma medida séria? Uma morte em campo?
Vem isto a propósito de mais um lance protagonizado este fim de semana entre ele e o Delvecchio no Sampdoria-Inter a lembrar o célebre lance com Zidane no último Mundial em que ele sai como vítima para os mais distraídos... Até o jogador mais calmo perde a cabeça!
Considero que é incrível como é que a UEFA não toma medidas para castigar exemplarmente este jogador. Na minha modesta opinião, este jogador devia ter sido banido do futebol profissional há muito tempo! Que mais terá que acontecer para se tomar uma medida séria? Uma morte em campo?
29.1.07
Outro fim-de-semana no campo...
Alguns meses depois da última reunião do clã, este fim-de-semana marcou novo reencontro desta vez da totalidade dos elementos da quadrilha e respectivas entourages.
Para início de conversa é justo dar os parabéns ao jb e à P., máximos responsáveis pela concretização, organização e acolhimento do evento.
Mesmo tratando-se de um período muito curto de tempo diga-se que não é fácil juntar 9 pessoas (8 mais ou menos adultos e 1 bebé) no mesmo espaço e passar o tempo num clima de descontracção e alegria, o que mais que comprovar a intimidade e amizade resultante de 20 anos de convívio entre nós os 4 vem acima de tudo mostrar que as nossas respectivas não só não enfraqueceram os elos que nos unem (como às vezes acontece…) como se integraram de forma fantástica, alinhando sempre com um tremendo fair-play e sorriso nos lábios, nas tainadas, nas conversas mais ou menos picantes e nos momentos de revivalismo que amiúde nos assaltam. Pelo exposto, às 4 mulheres das nossas vidas só posso dizer parabéns e obrigado.
Quanto ao resto, saliento,
as muletas do spider e os seus momentos ups! já fiz uma asneira outra vez (mesmo assim sempre com um sorriso nos lábios),
a estrondosa noite de sábado com o fondue convenientemente regado com quantidades apreciáveis do mui saboroso tinto da Bairrada, que ajudou a destravar línguas e corações abrindo caminho a uma tertúlia que fica para a história,
os já míticos duelos de catan pela madrugada fora com os intervenientes a resistir à base de uma rigorosa dieta de whisky-cola, batatas fritas e biscoitos de canela,
as jogatinas de snoker na cave a fazer lembrar outros tempos e outras idades,
as pequenas traições dos electrodomésticos caseiros com a máquina de lavar que deitava a luz abaixo, a televisão com o seu funcionamento temperamental, a lareira que não queria pegar e o esquentador que nos deixou na mão sujeitando os mais corajosos a banhos frios e os restantes a lavagens mais ou menos sumárias das partes mais ou menos pudendas.
Ansioso por voltar a ter num futuro de preferência não muito longínquo nova oportunidade de repetir este tipo de programa, termino como comecei:
Parabéns e obrigado a todos.
Para início de conversa é justo dar os parabéns ao jb e à P., máximos responsáveis pela concretização, organização e acolhimento do evento.
Mesmo tratando-se de um período muito curto de tempo diga-se que não é fácil juntar 9 pessoas (8 mais ou menos adultos e 1 bebé) no mesmo espaço e passar o tempo num clima de descontracção e alegria, o que mais que comprovar a intimidade e amizade resultante de 20 anos de convívio entre nós os 4 vem acima de tudo mostrar que as nossas respectivas não só não enfraqueceram os elos que nos unem (como às vezes acontece…) como se integraram de forma fantástica, alinhando sempre com um tremendo fair-play e sorriso nos lábios, nas tainadas, nas conversas mais ou menos picantes e nos momentos de revivalismo que amiúde nos assaltam. Pelo exposto, às 4 mulheres das nossas vidas só posso dizer parabéns e obrigado.
Quanto ao resto, saliento,
as muletas do spider e os seus momentos ups! já fiz uma asneira outra vez (mesmo assim sempre com um sorriso nos lábios),
a estrondosa noite de sábado com o fondue convenientemente regado com quantidades apreciáveis do mui saboroso tinto da Bairrada, que ajudou a destravar línguas e corações abrindo caminho a uma tertúlia que fica para a história,
os já míticos duelos de catan pela madrugada fora com os intervenientes a resistir à base de uma rigorosa dieta de whisky-cola, batatas fritas e biscoitos de canela,
as jogatinas de snoker na cave a fazer lembrar outros tempos e outras idades,
as pequenas traições dos electrodomésticos caseiros com a máquina de lavar que deitava a luz abaixo, a televisão com o seu funcionamento temperamental, a lareira que não queria pegar e o esquentador que nos deixou na mão sujeitando os mais corajosos a banhos frios e os restantes a lavagens mais ou menos sumárias das partes mais ou menos pudendas.
Ansioso por voltar a ter num futuro de preferência não muito longínquo nova oportunidade de repetir este tipo de programa, termino como comecei:
Parabéns e obrigado a todos.
26.1.07
Rentería...Renteríaaaaa.... Ruque... Raque...Ruque... Raque...
Este puto do Colorado parece ser bom... Golos de pé esquerdo e pé direito de fora da área são bons cartões de visita... A música não me sai do ouvido!... Brincadeiras do tipo da do cachimbo imitando o símbolo do Internacional de Porto Alegre é que devem ter os dias contados se bem conheço o Pintinho...
19.1.07
20. E 31 536 000.
Intróito
Reza a lenda que Deus fez o mundo em 6 dias e que ao 7º descansou .
Alexandre, Magno ou Grande em virtude de ter conquistado o meio mundo entre os Balcãs e a Indía, demorou cerca de 7 anos a completar a epopeia que lhe garantiu a imortalidade.
Mesmo considerando o tempo em que mamou e andou de gatas, Mozart só precisou de 5 anos para escrever as suas primeiras obras enquanto Camões, se calhar por ter apenas metade dos olhos dos restantes mortais, demorou talvez mais alguns a escrever os Lusíadas.
Tanto os meros e corriqueiros actos do dia-a-dia como alguns dos episódios mais marcantes da História são medidos em unidades de tempo.
Demoramos 7 minutos para cozer um ovo. 24 horas dum dia de Abril para fazer uma revolução.
Fumar um cigarro em 4 ou 5 minutos. Mais de 2 horas a passear em solo lunar.
Fim do intróito.
Não sei quanto tempo demora o ser humano comum a fazer um amigo. É certamente algo demasiado vago, enquanto acto e enquanto conceito, para poder ser temporizado. Depende de contextos, de personalidades e de ocasiões. Não deixa de ser curioso pensar que ao contrário do amor, o mais endeusado dos estados afectivos, uma amizade não nasce nunca à 1ª vista. Muito pelo contrário. É, além disso, uma relação que só vive enquanto houver vontade genuína das partes, no fundo um estado de pura vontade. Muitas vezes, ao contrário do tempo que leva a formar-se, uma amizade pode silenciosamente transformar-se por inércia, desleixo ou descuido, em algo diferente.
Diz-se por aí em músicas e em poemas e até em mensagens de sms que não há no mundo coisa mais preciosa que um amigo.
É verdade.
P.S. 1- e já lá vão mais de 20 anos...
P.S. 2- no dia 18 do corrente mês este blog cumpriu 1 ano de vida. 31 536 000 segundos.
Reza a lenda que Deus fez o mundo em 6 dias e que ao 7º descansou .
Alexandre, Magno ou Grande em virtude de ter conquistado o meio mundo entre os Balcãs e a Indía, demorou cerca de 7 anos a completar a epopeia que lhe garantiu a imortalidade.
Mesmo considerando o tempo em que mamou e andou de gatas, Mozart só precisou de 5 anos para escrever as suas primeiras obras enquanto Camões, se calhar por ter apenas metade dos olhos dos restantes mortais, demorou talvez mais alguns a escrever os Lusíadas.
Tanto os meros e corriqueiros actos do dia-a-dia como alguns dos episódios mais marcantes da História são medidos em unidades de tempo.
Demoramos 7 minutos para cozer um ovo. 24 horas dum dia de Abril para fazer uma revolução.
Fumar um cigarro em 4 ou 5 minutos. Mais de 2 horas a passear em solo lunar.
Fim do intróito.
Não sei quanto tempo demora o ser humano comum a fazer um amigo. É certamente algo demasiado vago, enquanto acto e enquanto conceito, para poder ser temporizado. Depende de contextos, de personalidades e de ocasiões. Não deixa de ser curioso pensar que ao contrário do amor, o mais endeusado dos estados afectivos, uma amizade não nasce nunca à 1ª vista. Muito pelo contrário. É, além disso, uma relação que só vive enquanto houver vontade genuína das partes, no fundo um estado de pura vontade. Muitas vezes, ao contrário do tempo que leva a formar-se, uma amizade pode silenciosamente transformar-se por inércia, desleixo ou descuido, em algo diferente.
Diz-se por aí em músicas e em poemas e até em mensagens de sms que não há no mundo coisa mais preciosa que um amigo.
É verdade.
P.S. 1- e já lá vão mais de 20 anos...
P.S. 2- no dia 18 do corrente mês este blog cumpriu 1 ano de vida. 31 536 000 segundos.
17.1.07
iQuaseTudo
Finalmente chegará no próximo Natal um gadjet que faz quase tudo e que, pasmem-se(!), também é telefone. Mas eu continuarei à espera do que traga, finalmente, frigorífico incluído... Até quando terei de esperar?
Suspiro...
16.1.07
No estaleiro...
12.1.07
O Luisão
O Luisão foi apanhado de madrugada a conduzir com excesso de álcool no sangue (coisita pouca, afinal eram só 1,33g/l).O Luisão deu depois uma conferência de imprensa em defesa do Luisão.
O Luisão disse que o que aconteceu ao Luisão podia acontecer a qualquer um.
O Luisão disse que o Luisão estava jantando com a esposa e um casal amigo e que bebeu vinho, sendo que o Luisão disse que o Luisão gosta de vinho.
Ora, o Wolverine até acha que o Luisão tem razão e que isto podia de facto acontecer a qualquer um (desde que esse qualquer um tenha carta, carro, beba muito para além da conta e depois decida conduzir).
O Wolverine até compreende o Luisão e o Wolverine julga inclusivamente que tal como no caso do Nuno Assis isto tudo não passa no fundo de uma vergonhosa perseguição do governo ao Benfica, orquestrada certamente pelo Pinto da Costa para desviar os olhares da Catarina e do apito.
O Wolverine chega até ao ponto de achar que o senhor Juiz, numa atitude de coragem com risco para a saúde do senhor Juiz, se demarcou desta horrível cabala decidindo que o Luisão terá de cumprir 40 horas de serviço comunitário mas que o Luisão não ficará inibido de conduzir.
O Wolverine, que tal como o Luisão também gosta de vinho,não se esquecerá de invocar esta sábia sentença na eventualidade de numa destas madrugadas ser apanhado com álcool a mais na asa.
11.1.07
Boa piada...
10.1.07
Como????

Pai nosso que estais colectado
contribuinte é o vosso nome
venha a nós o vosso dinheiro
seja feita a vossa colecta
assim no IRS e no IRC.
p.s.- As minhas desculpas por este momento de delírio. Acrescente-se que faço sinceros votos para que esta nova e inovadora estratégia dê frutos. O saneamento das finanças do país vale bem uma missa. Amén.
5.1.07
10 milhões de euros...
É quanto vai custar a realização do referendo ao aborto.
Ora,
não esquecendo que nas duas anteriores experiências a maioria do povo português mostrou bem o quanto (não) preza a possibilidade de se manifestar em referendo sobre um dado tema, preferindo adoptar a espantosa abordagem estilo "elegemos os gajos precisamente para decidirem e agora os gajos querem chatear-nos com estas merdas e portanto porra para eles nem sequer vamos tirar o cú do sofá"...
vem por este meio o signatário do presente post declarar que caso a abstenção volte a ganhar no dia 11 então não restará outra solução lógica ao parlamento que não seja a abolição pura e simples do instituto do referendo.
Aplicam-se as sacrosantas leis do mercado: um produto que não desperta interesse tem naturalmente tendência a acabar.
Ora,
não esquecendo que nas duas anteriores experiências a maioria do povo português mostrou bem o quanto (não) preza a possibilidade de se manifestar em referendo sobre um dado tema, preferindo adoptar a espantosa abordagem estilo "elegemos os gajos precisamente para decidirem e agora os gajos querem chatear-nos com estas merdas e portanto porra para eles nem sequer vamos tirar o cú do sofá"...
vem por este meio o signatário do presente post declarar que caso a abstenção volte a ganhar no dia 11 então não restará outra solução lógica ao parlamento que não seja a abolição pura e simples do instituto do referendo.
Aplicam-se as sacrosantas leis do mercado: um produto que não desperta interesse tem naturalmente tendência a acabar.
4.1.07
Uma praga dos tempos modernos
Fiel a uma estratégia gizada há uns anos, neste Natal e passagem de ano voltei a não responder a nenhum dos sms que recebi e voltei a não ter a iniciativa de os enviar.
Sem surpresa, e confesso até que com alguma alegria, verifiquei que lentamente, quase de forma imperceptível, os frutos deste não labor, desta estudada indiferença vão aparecendo e se há uns anos via o meu telemóvel apitar irritante e incessantemente com dezenas de mensagens pré-formatadas e pretensamente engraçadas, este ano recebi apenas 4.
Nas palavras de um tipo com o qual muitas vezes discordo:
"...as pessoas deixaram de conversar porque a conversa, no sentido mais elevado do termo, implica disponibilidade, gentileza e imaginação. Por isso se enviam estes farrapos de conversa, que significam nada porque nada é o que as pessoas têm cada vez mais para dizer umas às outras..."
João Pereira Coutinho, Expresso 30.12.2006
Sem surpresa, e confesso até que com alguma alegria, verifiquei que lentamente, quase de forma imperceptível, os frutos deste não labor, desta estudada indiferença vão aparecendo e se há uns anos via o meu telemóvel apitar irritante e incessantemente com dezenas de mensagens pré-formatadas e pretensamente engraçadas, este ano recebi apenas 4.
Nas palavras de um tipo com o qual muitas vezes discordo:
"...as pessoas deixaram de conversar porque a conversa, no sentido mais elevado do termo, implica disponibilidade, gentileza e imaginação. Por isso se enviam estes farrapos de conversa, que significam nada porque nada é o que as pessoas têm cada vez mais para dizer umas às outras..."
João Pereira Coutinho, Expresso 30.12.2006
30.12.06
29.12.06
A mais sexy do ano
23.12.06
A mulher do ano.

Pode até parecer a algumas almas mais sensíveis que há um certo exagero no epíteto atribuído à personagem, mas a realidade é que “Carolina” como agora lhe chamam os portugueses teve um impacto na vida mediática lusitana só comparável ao de um elefante numa loja de porcelana. Façamos, como se impõe, uma curta retrospectiva para melhor contextualizarmos a situação: andava a dita cuja algo perdida entre as danças nos colos e nos varões quando Pinto da Costa, inebriado pelos calores nocturnos e provavelmente sob os efeitos secundários do comprimidinho azul (o melhor amigo do homem a seguir ao cão), se convenceu que aquela gata borralheira trabalhadora e boazinha era a mulher da vida dele, digna inclusivamente de ser apresentada a sua excelentíssima e soleníssima santidade il Papa.
Como sempre acontece nos contos de fadas, tudo correu na santa paz do senhor até que os efeitos do encantamento terminaram e a realidade, nada incomodada com a crueldade que às vezes a caracteriza, interrompeu o idílio amoroso dos improváveis pombinhos. Com direito a capa nas revistas cor-de-rosa e a entrevistas televisivas, veio Carolina com olhinhos de sabujo alemão gritar aqui d’el rei que tinha sido maltratada e mostrar, com estudada pose de mulher indefesa, as nódoas que provavam a negra e vil agressão. Estão as coisas mais ou menos neste pé quando sai do prelo o famoso “Eu, Carolina”, abrindo literalmente a caixa de Pandora. Por entre relatos das liberdades gasosas a que o seu Giorgio se prestava, ficamos também a saber acerca do café e dos chocolatinhos para os árbitros e do rocambolesco episódio do ataque ao vereador Bexiga. Findemos então a retrospectiva, aliás por demais conhecida e assim sendo quiçá desnecessária, e passemos a analisar os dados em questão.
Diz a apostólica e católica Igreja Romana que para um indivíduo alcançar o famigerado estatuto de Santo é forçoso que as competentes entidades especializadas na difícil tarefa da certificação de milagres declarem que tal indivíduo realizou pelo menos 3 destes mais pios dos actos e, dictum e factum, teremos Santo na costa.Pois bem, eu, vil ateu ignorante nos caminhos e desígnios do Senhor e dos seus autorizados representantes, alvitro destemido, deixando à consideração da vossa superior análise que a dita Carolina já fez méritos mais que suficientes para cumprir tão apertado critério. Senão vejamos:
- é ou não um portentoso milagre mudar do estatuto de alternadeira, a gata borralheira, a namorada, a companheira, a noiva, passando novamente a reles rameira e finalmente a dilecta discípula de S. Jorge, matador de dragões?
- é ou não um portentoso milagre transformar em leitores compulsivos milhares de pessoas que anteriormente só exerciam essa capacidade nas legendas de filmes ou rodapé de telejornais?
- é ou não um portentoso milagre devolver, tão de acordo com o espírito da natalícia quadra, a alegria e a esperança a 6 milhões de portugueses?
- é ou não um portentoso milagre conseguir, no meio dos nebulosos meandros da justiça à portuguesa, ressuscitar de uma penada um processo que parecia moribundo?
- e finalmente, é ou não um assombro milagroso digno de divino registo fazer com que o indivíduo que reconheceu ter mandado agredir a apontasse como exemplo da atitude cívica?
Conclua-se à já longa epístola dizendo que Pinto da Costa ignorou sugestivos exemplos como os de Eva, Medeia, Dalila ou Lucrécia Bórgia, avaliou muito mal o perigo do errado manuseamento da dita Carolina e corre agora o sério risco de pagar por esse tão primário dos pecados, curiosamente às mãos de outra mulher.
Esperemos pois, com paciência de Jó, pelas cenas dos próximos capítulos.
21.12.06
Importa-se de repetir?
Paulo Bento a assumir "divórcio" com Carlos Martins:
"Os que querem vir à "guerra", montam-se nas minhas costas... Os que não quiserem, ficam de fora!"
"Os que querem vir à "guerra", montam-se nas minhas costas... Os que não quiserem, ficam de fora!"
12.12.06
O Pai Natal
Não bastava o pobre do homem morar na Lapónia, que como toda a gente sabe faz fronteira com o cú de judas. Não bastava o frio que por lá se deve rapar. Não bastava a porra da barba sempre suja de molho de rabanadas e com pedaços de filhoses. Não bastava ter como única companhia uma mulher obesa e vestida de encarnado como prenda todos os dias do ano. Não bastava ter 8 renas alcóolicas como animais de estimação e ter como único meio de locomoção um treno velho como a putaça sem cobertura ou aquecimento. Não bastava ter que descer pelas chámines como um ladrão e ter que enfiar a merda das prendas em meias a cheirar a mofo do ano anterior. Não. Tudo isto não bastava.O espírito natalício dos tugas descobriu uma nova e dolorosa forma de castigar o pobre do velho. A moda agora é deixá-lo pendurado nas fachadas dos prédios, preso às varandas e a trepar uma escadinha, sujeito ao frio, à chuva e à neve todo o mês de Dezembro e quiçá até aos Reis.
Olha Pai Natal, aceita o meu conselho e manda-os todos à merda...Não há patrocínio da Coca-Cola que valha tanto sofrimento.
P.S.- isto foi escrito em 16.12.2005, mas como a moda se manteve...
Olha Pai Natal, aceita o meu conselho e manda-os todos à merda...Não há patrocínio da Coca-Cola que valha tanto sofrimento.
P.S.- isto foi escrito em 16.12.2005, mas como a moda se manteve...
5.12.06
Camarate.
Diga-se que já lá vão 26 anos, 7 ou 8 comissões de inquérito, mais de 10 Governos e 3 Presidentes da República. Diga-se que quer o Ministério Público quer os diferentes tribunais que se pronunciaram sobre o caso concluiram que as provas existentes nem sequer justificavam a realização de um julgamento e que o alegado acto entretanto já prescreveu.
Pouco interessa. Alguns dos nossos políticos, sempre prontos a encher a boca de generalidades como o respeito pela separação de poderes e pela autonomia dos tribunais quando a coisa não lhes toca a eles, não concordam e como acham que se tratou de um crime preparam-se para engendrar uma qualquer solução ad hoc que permita que este caso chegue a julgamento.
Que a genial dupla Marques Mendes - Marques Guedes se saia com esta ideia não é de espantar. Que aquele pavão arrogante chamado Marcelo Rebelo de Sousa não perceba (ou finja não perceber) o perigo desta linha de acção já é mais surpreendente.
Que o PS se prepare para alinhar no jogo torna o assunto um caso bem sério porque dá pernas para andar a esta noção idiota do Parlamento como o verdadeiro Supremo Tribunal.
Assim sendo só resta esperar que Cavaco Silva esteja atento e não deixe passar em claro esta irresponsabilidade. Não será preciso muito esforço, afinal basta uma palavrinha rápida num qualquer discurso.
Pouco interessa. Alguns dos nossos políticos, sempre prontos a encher a boca de generalidades como o respeito pela separação de poderes e pela autonomia dos tribunais quando a coisa não lhes toca a eles, não concordam e como acham que se tratou de um crime preparam-se para engendrar uma qualquer solução ad hoc que permita que este caso chegue a julgamento.
Que a genial dupla Marques Mendes - Marques Guedes se saia com esta ideia não é de espantar. Que aquele pavão arrogante chamado Marcelo Rebelo de Sousa não perceba (ou finja não perceber) o perigo desta linha de acção já é mais surpreendente.
Que o PS se prepare para alinhar no jogo torna o assunto um caso bem sério porque dá pernas para andar a esta noção idiota do Parlamento como o verdadeiro Supremo Tribunal.
Assim sendo só resta esperar que Cavaco Silva esteja atento e não deixe passar em claro esta irresponsabilidade. Não será preciso muito esforço, afinal basta uma palavrinha rápida num qualquer discurso.
4.12.06
Sugestões
30.11.06
Ron Mueck
26.11.06
Rejeição.
Fechou a porta com estrondo e encostou-se a ela como quem procura um abraço ou um ombro amigo. Dentro do peito o coração batia forte e rápido, como se pretendesse escapar daquela prisão, daquela dor, rompendo violento por costelas, esterno, derme e epiderme. Depois de ter cumprido um longo trajecto desde o canto do olho chegou-lhe à boca uma lágrima, solitária e triste, nem doce nem amarga mas sim com um leve travo a salgado. Inevitavelmente lembrou-se do gosto dos lábios dela, uma improvável mistura de limão, canela e maçã. Por mais que pensasse não encontrava resposta para as perguntas que sem descanso lhe martelavam a cabeça: porquê? o que correu mal? onde falhei? porra, será que falhei?
Que não era culpa dele, tinha-lhe dito ela. Que lá bem no fundinho não era culpa de ninguém, que era óbvio que a relação não tinha rumo, não tinha futuro, vivia apenas do passado e estava imóvel, parada no tempo do presente como um velho sentado à beira da estrada a pensar no que já foi, mero espectador da vida dos outros. Que tinha por ele muito carinho, disserá ela sem se aperceber da mais que absoluta crueldade da expressão. Não conseguiu evitar um sorriso, no fundo um esgar de cinismo. Ele que durante anos sempre se fechara em copas, evitando ir a jogo, evitando o terreno minado das relações, tinha atirado o cuidado às urtigas e dado finalmente tudo de si, arrastado num torpor dormente, metade dor metade prazer, enfeitiçado por aqueles enormes olhos de preto azeitona, ao mesmo tempo límpidos e enigmáticos. Incoerências, contrasensos, irracionalidades várias. Os sinais estavam lá, pensava agora enquanto olhava para trás. Como era possível ter sido vaidoso ao ponto de presumir que poderia conter numa redoma toda aquela alegria, aquele sentido de humor e sorriso imparáveis, cheios de promessas, cheios de calor? Tinha-se resumido tudo a uma luta inglória com um final tão previsível que nem sequer se podia dizer surpreendido. Quantas vezes tinha assistido a situações destas, confortavelmente instalado no seu habitual posto de atento observador, seguríssimo no seu papel de ombro amigo para as horas más, fiel porto de abrigo. Onde estava agora toda a confiança, a calma que demonstrava quando arrogantemente aconselhava os outros? Idiota.
As frases feitas, os muitos peixes do mar, o tempo que tudo cura, de que lhe serviam agora, no meio da baba e do ranho? Idiota.
Como um autómato serviu-se de um copo generoso de whisky que tragou com um gole. Bebeu outro e ainda mais outro, numa patética tentativa de conquistar um estado de ausência, um não estado onde tudo aquilo não existisse pelo menos durante um par de horas. Onde ela não existisse. Nem os olhos, nem o sorriso, nem as mamas, nem aquela boca e aquela língua. Deu consigo a masturbar-se, de raiva e de despeito. Só quando se veio, mecanicamente, cansado e banhado em lágrimas, é que constatou que o lhe doía não era estar novamente sozinho. O que lhe doía ao ponto de o queimar por dentro era a profunda certeza de que iria sempre gostar dela.
Que não era culpa dele, tinha-lhe dito ela. Que lá bem no fundinho não era culpa de ninguém, que era óbvio que a relação não tinha rumo, não tinha futuro, vivia apenas do passado e estava imóvel, parada no tempo do presente como um velho sentado à beira da estrada a pensar no que já foi, mero espectador da vida dos outros. Que tinha por ele muito carinho, disserá ela sem se aperceber da mais que absoluta crueldade da expressão. Não conseguiu evitar um sorriso, no fundo um esgar de cinismo. Ele que durante anos sempre se fechara em copas, evitando ir a jogo, evitando o terreno minado das relações, tinha atirado o cuidado às urtigas e dado finalmente tudo de si, arrastado num torpor dormente, metade dor metade prazer, enfeitiçado por aqueles enormes olhos de preto azeitona, ao mesmo tempo límpidos e enigmáticos. Incoerências, contrasensos, irracionalidades várias. Os sinais estavam lá, pensava agora enquanto olhava para trás. Como era possível ter sido vaidoso ao ponto de presumir que poderia conter numa redoma toda aquela alegria, aquele sentido de humor e sorriso imparáveis, cheios de promessas, cheios de calor? Tinha-se resumido tudo a uma luta inglória com um final tão previsível que nem sequer se podia dizer surpreendido. Quantas vezes tinha assistido a situações destas, confortavelmente instalado no seu habitual posto de atento observador, seguríssimo no seu papel de ombro amigo para as horas más, fiel porto de abrigo. Onde estava agora toda a confiança, a calma que demonstrava quando arrogantemente aconselhava os outros? Idiota.
As frases feitas, os muitos peixes do mar, o tempo que tudo cura, de que lhe serviam agora, no meio da baba e do ranho? Idiota.
Como um autómato serviu-se de um copo generoso de whisky que tragou com um gole. Bebeu outro e ainda mais outro, numa patética tentativa de conquistar um estado de ausência, um não estado onde tudo aquilo não existisse pelo menos durante um par de horas. Onde ela não existisse. Nem os olhos, nem o sorriso, nem as mamas, nem aquela boca e aquela língua. Deu consigo a masturbar-se, de raiva e de despeito. Só quando se veio, mecanicamente, cansado e banhado em lágrimas, é que constatou que o lhe doía não era estar novamente sozinho. O que lhe doía ao ponto de o queimar por dentro era a profunda certeza de que iria sempre gostar dela.
24.11.06
Notas soltas
1- Uma vantagem competitiva da pátria.
2- Uma estratégia hard-core.
3- Um ataque a um nicho de mercado tradicionalmente reservado às coelhinhas da Playboy.
2- Uma estratégia hard-core.
3- Um ataque a um nicho de mercado tradicionalmente reservado às coelhinhas da Playboy.
20.11.06
15.11.06
No meio das pedras e dos chicotes...
De tempos a tempos, contrariando uma visão da mulher que parece comum a grande parte do mundo islâmico (como um mero instrumento de posse, sem direito a escolher com quem casar, o que vestir, onde ou como trabalhar, etc...), lá aparecem umas notícias que, enfim, lançam uma pequena esperança de que o estado actual das coisas não é uma fatalidade inalterável. Será uma mera luz ao fundo do túnel, eventualmente até uma vitoria de Pirro se tivermos em conta as reacções dos partidos religiosos, mas mesmo assim esta iniciativa merece ser saudada.
13.11.06
8.11.06
Perdedores.

O dia de ontem foi marcado pelas eleições americanas, cuja influência é tal que há quem sugira meio a sério meio a brincar que o assunto é importante demais para ser decidido só por eles.
Desta vez não houve milagres de última hora para contrariar as sondagens e os republicanos perderam mesmo a Câmara dos Representantes e provavelmente o Senado.
Não lhes valeu a roda viva em que Bush passou os últimos dias, nem a gafe de John Kerry ou a sentença de Saddam. Não lhes valeu usar o medo como arma eleitoral, nem o recurso a truques pouco edificantes como os negative adds ou até insinuar o suposto anti-patriotismo de alguns democratas (por se atreverem a discordar do rumo seguido no Iraque ou do uso de tortura nos interrogatórios de suspeitos). Não houve voto evangélico salvador.
Visto de fora, nem sequer se pode dizer que o mérito é inteiramente dos democratas mas sim da conjugação entre o crescente número de baixas americanas no Iraque (agravado pela percepção cada vez mais clara de que não há uma estratégia para resolver o futuro do país, quanto mais torná-lo num exemplo de democracia...) e o acumular de escândalos comprometedores envolvendo alguns dos principais elementos do Partido Republicano.
Dá-me vontade de rir as teorias que começam a circular por aí (nos blogues do costume) de que quem está contente com este resultado só pode ser o povo de esquerda que festeja as vitórias de Lula e simpatiza com Castro, Morales ou Chavéz. É tão fácil meter tudo no mesmo saco e brandir a estafada acusação de anti-americanismo primário. Eu, que estou contente porque Bush e a sua doutrina perderam, não aceito esse rótulo.
Pode ser um excesso de optimismo ou até ingenuidade, mas acredito que a partir de 2008 o próximo Presidente (seja ele o republicano McCain ou a democrata Hillary) não cometerá os mesmos erros de Bush, mesmo que a política externa dos EUA se mantenha mais ou menos igual.
7.11.06
2.11.06
À conversa com uma mulher de 70 anos...
A simpática madame, mulher de armas, resistente de muitas batalhas, com uma vida de trabalho de sol a sol no campo e 24 sobre 24 em casa, com uma tolerância à dor de fazer inveja a muito pseudo-macho que por aí anda, afectada por um severo caso de pelosidade malina quer facial quer nos apêndices locomotores, dissertava, daquela forma que só as pessoas verdadeiramente genuínas sabem fazer, sobre a sua relação com o marido.
Contava ela que, mesmo com mais de 50 anos de casamento, ainda se dão muito bem ou melhor sempre se deram bem. Riem-se, ela vai-se metendo com ele porque ele é mais do estilo calado e nunca, mas mesmo nunca discutiram. Nem uma vezinha que fosse. E isto derivado da forma de ser dos dois e da forma como ela foi educada, sendo que teve uma avó que muito lhe ensinou. E deu como exemplo esta pérola que passo a partilhar:
"A minha avó dizia para olhar sempre com atenção para a cara do marido quando ele entrasse em casa. Se vinha chateado, aconselhava-nos a fazer duas coisas: primeiro devíamos encher a boca de água, isto para não correr o risco de dizer algo que o irritasse, e depois devíamos esconder da vista ou pelo menos arrumar para um canto qualquer banquito que houvesse na cozinha, isto para não correr o risco de levar com ele nas costas."
Antes de se ir embora, ainda se ria bem disposta quando disse "ah eu digo estas coisas mas a verdade é que com esta barba tão forte eu podia bem ser homem".
Contava ela que, mesmo com mais de 50 anos de casamento, ainda se dão muito bem ou melhor sempre se deram bem. Riem-se, ela vai-se metendo com ele porque ele é mais do estilo calado e nunca, mas mesmo nunca discutiram. Nem uma vezinha que fosse. E isto derivado da forma de ser dos dois e da forma como ela foi educada, sendo que teve uma avó que muito lhe ensinou. E deu como exemplo esta pérola que passo a partilhar:
"A minha avó dizia para olhar sempre com atenção para a cara do marido quando ele entrasse em casa. Se vinha chateado, aconselhava-nos a fazer duas coisas: primeiro devíamos encher a boca de água, isto para não correr o risco de dizer algo que o irritasse, e depois devíamos esconder da vista ou pelo menos arrumar para um canto qualquer banquito que houvesse na cozinha, isto para não correr o risco de levar com ele nas costas."
Antes de se ir embora, ainda se ria bem disposta quando disse "ah eu digo estas coisas mas a verdade é que com esta barba tão forte eu podia bem ser homem".
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